"Acho que o autor precisa se mobilizar. Procure, sim, um apoio, mas, caso não o consiga, tente produzir sua própria idéia", aconselha.
Bruno vê, nessa pluralidade de espaços e de valorização da poesia, a oportunidade de mostrar o trabalho a um maior número de pessoas, o que é extremamente gratificante. Ainda assim, o mercado, para ele, não pode ser encarado como fator essencial. "Quando se cria um texto, uma poesia ou uma arte visual, o artista precisa concatenar o real e o fantástico, precisa mexer com a mente e com os sentimentos do leitor", defende. Dessa forma, escrever pensando em vender acabaria, segundo o poeta, tornando a produção medíocre, forçando-a a se adequar ao gosto popular já estabelecido.
"Uma avalanche. Estamos na época da quantidade", avalia Camila Diniz, superintendente do Suplemento Literário do Minas Gerais, publicação oficial do estado. Para ela, os jovens têm manifestado uma vontade muito grande de produzir, ainda que, comercialmente, o público não tenha tanto peso. "A poesia sempre foi feita para ser lida oralmente. Os jovens estão interessadíssimos em ouvi-la. Nos eventos, elogiam muito e voltam", conta Camila. Ela revela receber no Suplemento quatro vezes mais poesias do que qualquer outro gênero literário, e acredita que da quantidade nasce a qualidade.
Para a professora Vera Casanova, do Departamento de Letras da UFMG, outra forma de acesso à poesia pelos jovens, apesar da polêmica que suscita, seria a da música. "O jovem gosta de poesia. Só que quase não lê, não compra. Gosta de ouvir, via música. A MPB pode mostrar isso com Djavan, Caetano Veloso, Zeca Baleiro, Chico Buarque, Lenine e tantos outros", comenta. A professora entende que poesia e mercado, desde seus primórdios, viveram conflitos, e que, ainda hoje, os versos têm preconceitos a serem vencidos. "Drummond, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, durante muito tempo, se serviram da editora do autor", lembra.
Vera também identifica outros lugares para a manifestação da poesia contemporânea. "O século 20 abriu as comportas da criação plural, sem medidas. A poesia visual tomou seu lugar e, hoje, ela pode ser vista, por exemplo, na propaganda, de forma inequívoca", revela. Para a professora, existe, de fato, uma dificuldade de compreensão ou aceitação desses espaços como propícios à poesia, o que decorreria da tradição verbal que caracteriza o Ocidente. "Falta, talvez, um trabalho nas escolas, que abra perspectivas de leitura das artes visuais e da própria literatura contemporânea. O leitor jovem está mais aberto às inovações do que o leitor contumaz. Os professores parecem ter medo da leitura do poema e traumatizam o aluno com os problemas de interpretação", conclui.
Ainda assim, é no ambiente escolar que o convite à poesia é feito com maior freqüência, despertando o interesse de alguns jovens. É o caso do estudante de história da UFMG Wallison Antunes, de 23, que dedica à escola um lugar especial em sua vida. "É um espaço privilegiado para quem, como eu, vem de uma família na qual o hábito de ler praticamente não existe", observa.
Walisson encontra na escola as raízes de seu interesse pela poesia. "A partir daí, jamais parei, pois mantive contato contínuo com outros leitores, pessoas que também se apaixonaram pela poesia ainda na escola", conta. Leitor fiel de Adélia Prado, Ledo Ivo e Castro Alves, o jovem se diz esperançoso com relação ao futuro da poesia. "Sempre estou pronto para conhecer um novo autor, que, em geral, pertence à nova geração", completa.